Por Romário Cavalcante · Engenheiro Civil · CREA-GO 1017602964D
A ABNT NBR 6118, norma brasileira de projeto de estruturas de concreto, nasceu em 1940 com o nome de NB-1 e passou por seis grandes etapas até chegar à NBR 6118:2026. Começou como um texto de 24 páginas que tratava de cálculo e execução do concreto armado. Hoje é um documento de centenas de páginas, só de projeto, que cobre também o concreto protendido, a durabilidade e a avaliação independente do projeto.[1]

1940: a NB-1, primeira norma técnica brasileira
A Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) foi fundada em 1940, no Rio de Janeiro, e sua primeira norma foi a NB-1, “Cálculo e execução de obras de concreto armado”. Ela nasceu da união de duas propostas, uma da Associação Brasileira de Concreto e outra da Associação Brasileira de Cimento Portland, e teve como principais autores José Furtado Simas e Telemaco van Langendonck.[1]
Eram 24 páginas em formato A5, com influência da norma alemã DIN 1045. O texto juntava em um só documento o cálculo, as disposições construtivas, os materiais e a execução das obras. A revista Concreto da época destacou que não se tratava de tradução de regulamentos estrangeiros, mas de uma norma feita por brasileiros.[1]
1960: a resistência característica (fck)
A NB-1 de 1960 manteve os capítulos de 1940 em 19 páginas A4, mas trouxe dois conceitos que estão em uso até hoje: o cálculo na ruptura para todas as solicitações e a resistência característica do concreto, o fck, definida por critério estatístico. Entre os autores estavam Fernando Luiz Lobo Carneiro e Telemaco van Langendonck, e a revisão contou com a cooperação do Comitê Europeu do Concreto (CEB).[1]
1978: estados-limites e o nome NBR 6118
A NB-1 de 1978, que em 1980 foi registrada como NBR 6118, cresceu para 53 páginas. Ela adotou o método dos estados-limites, separando as verificações de ruptura (estados-limites últimos) e as de uso (estados-limites de serviço), em linha com as recomendações europeias da época. Péricles Brasiliense Fusco, Lauro Modesto dos Santos e Augusto Carlos de Vasconcelos estavam entre os autores.[1], [4]
Nessa época o concreto protendido tinha norma própria. A NB-116, registrada como NBR 7197, “Projeto de estruturas de concreto protendido”, teve sua edição final publicada em 1989.[3]
2003: projeto separado da execução e o protendido incorporado
A edição de 2003 foi a maior mudança da história da norma. Depois de mais de dez anos de trabalho, o texto foi totalmente reorganizado na sequência do projeto e chegou a 221 páginas.[1] Três decisões marcaram essa edição:
- Só projeto: a execução saiu da NBR 6118 e foi para a ABNT NBR 14931, e o controle do concreto para a ABNT NBR 12655.[4]
- Concreto protendido na mesma norma: a NBR 6118 passou a tratar do concreto simples, armado e protendido, e a NBR 7197 foi cancelada.[1], [3]
- Durabilidade: entraram as classes de agressividade ambiental, ligadas à classe mínima do concreto e ao cobrimento das armaduras.[1]
Para a protensão, foi a edição que colocou num só texto as regras de tensão no aço, perdas de protensão e níveis de protensão. Em 2007 a norma recebeu uma emenda, e em 2008 foi aprovada pelo comitê técnico de concreto da ISO (ISO/TC 71) como norma de padrão internacional.[1], [2]
2014: concretos de alta resistência e avaliação do projeto
A terceira edição, publicada em abril de 2014, manteve a estrutura de 2003, com cerca de 260 páginas.[1], [5] As principais novidades foram:
- inclusão dos concretos de alta resistência, de C55 a C90;
- exigência de avaliação da conformidade do projeto por profissional habilitado, independente do projetista, quando pedida pelo contratante;
- critérios de cobrimento para elementos em contato com o solo e para lajes em concreto protendido na Tabela 7.2.
Essa foi a edição que a maior parte do mercado usou por quase uma década.
2023: ajustes na protensão
A edição de 2023 trouxe novos coeficientes e critérios. Os que mais interessam à protensão:[6], [8]
- alterações nas verificações do concreto no ato da protensão (17.2.4.3.2), com um redutor para concretos acima de 50 MPa;
- limites explícitos para compressão excessiva no concreto em serviço (17.2.4.4), definidos pela própria norma brasileira, e não mais pela prática anterior baseada na norma americana ACI;
- novo critério para a flecha imediata de vigas protendidas (17.3.2.1.1);
- Tabela 13.4 com o tipo de protensão (pré-tração ou pós-tração) em coluna própria;
- exigência explícita de considerar todas as perdas de protensão no cálculo dos esforços de protensão;
- regras para cabos em faixa externa nas lajes (20.3.2.2);
- possibilidade de usar os próprios cabos de protensão, no mínimo dois, como parte da armadura contra colapso progressivo junto aos pilares (20.3.2.6).
2026: a Emenda 1
Em 11 de março de 2026 a ABNT publicou a Emenda 1. Ela não substitui a edição de 2023: as duas são lidas juntas, e o conjunto equivale à NBR 6118:2026.[7] O prefácio da NBR 6118:2026 traz a regra de transição: ela não se aplica a projetos protocolados para aprovação antes da publicação nem aos protocolados em até 180 dias depois dela; nesses casos, vale a edição de 2023.[9]
Pontos da emenda que afetam a protensão:[6]
- Atrito em cabos não aderentes (9.6.3.3.2.2): o coeficiente de atrito entre a cordoalha e a bainha de polipropileno lubrificada passou de 0,05 para 0,07, e o coeficiente k, que representa as ondulações não intencionais do cabo, passou de 0,01μ para 0,065μ por metro nesse caso, quando não houver dados experimentais. Nos demais casos, k continua 0,01μ.[9] Esse coeficiente entra na força média do cabo e, portanto, no alongamento teórico conferido na obra.
- Lajes protendidas (Tabela 13.4): a nova Nota 2 diz que, no projeto de lajes protendidas, basta atender ao estado-limite de formação de fissuras (ELS-F) na combinação frequente de ações, em todas as classes de agressividade.[9]
- Deslocamentos (Tabela 13.3): sai o limite angular de 0,0017 rad e entra nota exigindo considerar fluência, retração, sequência de carregamento e idade de retirada do escoramento.
- Fluência: o Eci passa a ser o módulo inicial aos 28 dias, referido ao módulo cordal da ABNT NBR 8522-1, e é ele que entra nas equações de fluência, uma das causas das perdas progressivas.
- Laje-cogumelo: a antiga “laje lisa”, comum em edifícios protendidos, passa a ser chamada de laje-cogumelo maciça sem capitel.
Outras mudanças da emenda: a Avaliação Técnica de Projeto (ATP) ganhou regras detalhadas, com classes de consequência e independência do avaliador, baseadas na Recomendação ABECE 002:2015; lajes em balanço, como marquises, passam a exigir armadura inferior contra colapso total; e emendas por traspasse ficam proibidas em barras acima de 32 mm.[6], [7]

O que essa história mostra
- A norma ficou mais exigente com a durabilidade. De 1940 a 2003 o foco era a resistência; desde 2003 o cobrimento e a classe do concreto dependem do ambiente.
- Projeto e execução se separaram. Quem executa protensão hoje trabalha com a NBR 14931, mas recebe do projeto valores calculados pela NBR 6118. Veja as normas que regem a protensão.
- A protensão ganhou espaço próprio. Desde 2003 ela está dentro da norma-mãe, e cada revisão refina perdas, tensões e regras de lajes.
- A revisão é contínua. O próprio comitê da norma trabalha com revisões periódicas, e a emenda de 2026 mostra que ajustes podem vir entre uma edição e outra.
Para saber o que a edição atual exige de um projeto protendido, leia NBR 6118 e protensão.
Perguntas frequentes
Qual foi a primeira norma de concreto do Brasil?
A NB-1, de 1940, primeira norma publicada pela ABNT. Tratava do cálculo e da execução de obras de concreto armado em 24 páginas.
Quando a NB-1 virou NBR 6118?
A edição de 1978 da NB-1 foi registrada como NBR 6118 em 1980.
Quando o concreto protendido entrou na NBR 6118?
Na edição de 2003. Antes, o protendido tinha norma própria, a NBR 7197 (NB-116), cuja última edição é de 1989 e que foi cancelada com a nova NBR 6118.
Quais são as edições da NBR 6118?
NB-1 de 1940, NB-1 de 1960, NBR 6118:1978, NBR 6118:2003 (com emenda em 2007), NBR 6118:2014, NBR 6118:2023 e a Emenda 1 de 2026, que junto com a edição de 2023 forma a NBR 6118:2026.
Existe uma NBR 6118:2026?
Sim, mas não como texto reescrito. É a edição de 2023 lida junto com a Emenda 1, publicada em 11/03/2026.
Por que a execução não está mais na NBR 6118?
Desde 2003 a NBR 6118 trata só do projeto. A execução passou para a ABNT NBR 14931 e o controle do concreto para a ABNT NBR 12655.
Precisa executar um projeto protendido feito pela norma atual? Fale com a Brasil Protensão.
Referências técnicas
- Kimura, A. E.; Hampshire, S. ABNT NBR 6118: evolução, tendências e desafios. Palestra, IBRACON/ABECE, 2013.
- Cimento Itambé: Revisão realça NBR 6118 como referência internacional.
- ABNT NBR 7197:1989, Projeto de estruturas de concreto protendido (cancelada). Catálogo Target.
- ABECE/AECweb: Tudo o que você precisa saber sobre a nova norma de execução de estruturas de concreto, a ABNT NBR 14931:2023.
- Instituto de Engenharia: ABNT NBR 6118:2014, considerações sobre a nova norma.
- APL Engenharia: NBR 6118:2026, o que mudou com a revisão e como aplicar cada alteração.
- ABECE: NBR 6118 tem emenda publicada pela ABNT.
- Sienge: O que é NBR 6118, projeto de estruturas de concreto.
- ABNT NBR 6118:2026, Projeto de estruturas de concreto (edição de 2023 com a Emenda 1:2026): prefácio, item 9.6.3.3.2.2 e Tabela 13.4.
