Por Romário Cavalcante · Engenheiro Civil · CREA-GO 1017602964D

A ABNT NBR 6118 é a norma brasileira de projeto de estruturas de concreto, e vale tanto para o concreto armado quanto para o protendido. Para quem trabalha com protensão, ela define a classe mínima do concreto, o cobrimento dos cabos, a tensão máxima que se pode aplicar no aço, como calcular as perdas de protensão e quais verificações a peça precisa atender em serviço. A edição em vigor é a NBR 6118:2026, que é a edição de 2023 lida junto com a Emenda 1, publicada em março de 2026.[1]

Cordoalhas engraxadas distribuídas sob a armadura de uma laje protendida antes da concretagem
Cordoalhas distribuídas em uma laje protendida: força, traçado e alongamento de cada cabo vêm do projeto feito pela NBR 6118.

Quem a NBR 6118 atinge na protensão?

A norma é dirigida ao projetista estrutural, mas o que ela determina chega à obra pelo projeto. O traçado dos cabos, a força em cada um, a resistência do concreto exigida para protender e o alongamento esperado saem de cálculos feitos com base na NBR 6118. A execução segue outra norma, a ABNT NBR 14931, e por isso a empresa de protensão precisa conhecer as duas: uma explica por que o projeto pede o que pede, a outra diz como executar.[2]

Classe do concreto e relação água/cimento

O concreto protendido tem exigências mais altas que o armado, porque o aço tensionado é mais sensível à corrosão. A Tabela 7.1 da norma liga a classe de agressividade ambiental (CAA) do local da obra à classe mínima do concreto e à relação água/cimento máxima:[1]

Classe de agressividade Ambiente típico Concreto protendido: classe mínima Relação a/c máxima
I (fraca) Rural, submerso C25 0,60
II (moderada) Urbano C30 0,55
III (forte) Marinho, industrial C35 0,50
IV (muito forte) Industrial químico, respingos de maré C40 0,45

Na prática, uma laje protendida em ambiente urbano começa em C30. O projeto pode pedir mais, por exemplo para atingir mais cedo a resistência de protensão.

Cobrimento dos cabos

O cobrimento é a camada de concreto entre a face da peça e o aço. Para armaduras ativas, a Tabela 7.2 pede 5 mm a mais que para a armadura comum, medidos até a bainha ou a cordoalha:[1]

Elemento protendido CAA I CAA II CAA III CAA IV
Laje 25 mm 30 mm 40 mm 50 mm
Viga e pilar 30 mm 35 mm 45 mm 55 mm

Na obra, esse cobrimento é garantido pelos espaçadores e pelas cadeirinhas que dão a altura do cabo. Cadeirinha errada muda ao mesmo tempo o cobrimento e a excentricidade do cabo, que é o que faz a protensão trabalhar.

Espessura mínima das lajes protendidas

O item 13.2.4.1 fixa 15 cm para lajes protendidas apoiadas em vigas, com espessura mínima de l/42 para lajes biapoiadas e l/50 para lajes contínuas, sendo l o vão. Para lajes apoiadas diretamente nos pilares, sem vigas, o mínimo é 16 cm.[1] A Emenda 1 passou a chamar essas lajes de lajes-cogumelo maciças sem capitel, nome que substitui “laje lisa” no texto da norma.[3]

Quanto se pode tensionar o aço

O item 9.6.1.2.1 limita a tensão no aço na saída do macaco. Os limites dependem do tipo de protensão e são dados em função da resistência à tração (fptk) e da resistência de escoamento (fpyk) do aço. Para cordoalhas de relaxação baixa em pós-tração, os limites são:[1]

Para uma cordoalha CP 190 RB, com fptk de 1.900 MPa e fpyk de 1.710 MPa, isso dá cerca de 1.400 MPa na protensão aderente e cerca de 1.500 MPa na não aderente. É o projetista quem fixa a força de cada cabo, dentro desses limites. A equipe de campo não pode passar dela para “compensar” alongamento baixo.

Perdas de protensão

A força que fica no cabo ao longo da vida da estrutura é menor que a aplicada pelo macaco. O item 9.6.3 manda calcular essas perdas em dois grupos:[1]

A perda por atrito é calculada por uma expressão exponencial, com o coeficiente de atrito μ e o coeficiente k, que representa as ondulações não intencionais do cabo. É essa força média, já descontadas as perdas, que entra no cálculo do alongamento teórico conferido na obra. Para ver como esse valor é medido, leia o artigo sobre a medição do alongamento na protensão.

A Emenda 1 de 2026 alterou justamente o item que trata do atrito em cabos não aderentes (9.6.3.3.2.2). O artigo evolução da NBR 6118 explica a mudança.

Concreto na hora de protender

No ato da protensão o concreto ainda é jovem e recebe a força concentrada das ancoragens. O item 17.2.4.3.2 limita as tensões nesse momento: a compressão não pode passar de 70% da resistência do concreto na data da protensão (0,7 fckj), e a tração não pode passar de 1,2 vez a resistência média à tração (1,2 fctm).[1] Por isso o projeto define uma resistência mínima para protender, e a obra só chama a equipe de protensão depois de confirmar esse valor no rompimento de corpos de prova.

Níveis de protensão e fissuração

A Tabela 13.4 define o que a peça precisa atender em serviço. Ela trabalha com três níveis de protensão:[1]

O nível exigido depende da classe de agressividade e de a protensão ser pré-tração ou pós-tração. A edição de 2023 passou a mostrar o tipo de protensão em uma coluna própria da tabela, e a Emenda 1 incluiu uma nota específica para lajes protendidas: nelas, basta atender ao ELS-F na combinação frequente de ações, em todas as classes de agressividade.[1]

Regras próprias das lajes protendidas

A seção 20.3 trata do detalhamento de lajes protendidas. Pelo item 20.3.2.1, para uma faixa de laje ser tratada como protendida, o espaçamento entre cordoalhas, cabos ou feixes deve ser de no máximo 6 vezes a espessura da laje, sem passar de 120 cm, e a protensão deve resultar em compressão média de pelo menos 1 MPa, já descontadas todas as perdas. A norma também trata dos cabos concentrados em faixas sobre os pilares.[1] A norma também exige armadura passiva mínima nas lajes protendidas (seção 19.3.3.2) e armadura contra o colapso progressivo junto aos pilares.

Nas lajes sem vigas, a punção (o risco de o pilar “furar” a laje) é verificada pela seção 19.5. Os cabos que passam inclinados sobre o pilar ajudam a resistir a esse esforço, e a norma permite considerar esse efeito no cálculo.

Faixa de cabos de protensão concentrados em laje protendida, com profissional conferindo a montagem
Cabos concentrados em faixa, um dos arranjos de lajes protendidas tratados na seção 20.3 da norma.

O que isso significa na obra

Perguntas frequentes

A NBR 6118 vale para concreto protendido?

Sim. A ABNT NBR 6118 é a norma de projeto de estruturas de concreto simples, armado e protendido. A execução da protensão segue a ABNT NBR 14931.

Qual a classe mínima de concreto para estrutura protendida?

Depende da agressividade do ambiente: C25 na classe I, C30 na II, C35 na III e C40 na IV, conforme a Tabela 7.1 da NBR 6118. O projeto pode exigir uma classe maior.

Qual o cobrimento mínimo de uma laje protendida?

Pela Tabela 7.2 da NBR 6118, o cobrimento nominal da armadura ativa em lajes é de 25 mm na classe de agressividade I, 30 mm na II, 40 mm na III e 50 mm na IV.

Qual a tensão máxima na cordoalha engraxada?

Na saída do macaco, o menor valor entre 0,80 fptk e 0,88 fpyk, pelo item 9.6.1.2.1 da NBR 6118. Para uma cordoalha CP 190 RB, isso dá cerca de 1.500 MPa. A força de cada cabo é definida no projeto.

Quais são as perdas de protensão previstas na norma?

As imediatas, por atrito, acomodação das cunhas e encurtamento elástico do concreto, e as progressivas, por retração e fluência do concreto e relaxação do aço.

Qual a espessura mínima de uma laje protendida?

15 cm para lajes protendidas apoiadas em vigas e 16 cm para lajes apoiadas diretamente nos pilares, sem capitel, pelo item 13.2.4.1 da NBR 6118.

Tem dúvida sobre o projeto de protensão da sua obra? Fale com a Brasil Protensão.

Referências técnicas

  1. ABNT NBR 6118:2023, Projeto de estruturas de concreto, com a Emenda 1:2026 (equivalente à ABNT NBR 6118:2026). Tabelas 7.1, 7.2, 13.4 e itens 9.6, 13.2.4.1, 17.2.4.3.2, 19.3.3.2, 19.5 e 20.3.2.1.
  2. ABNT NBR 14931:2023, Execução de estruturas de concreto armado, protendido e com fibras: requisitos.
  3. APL Engenharia: NBR 6118:2026, o que mudou com a revisão.
  4. ABECE: NBR 6118 tem emenda publicada pela ABNT.