Por Romário Cavalcante · Engenheiro Civil · CREA-GO 1017602964D
A ABNT NBR 14931 é a norma brasileira de execução de estruturas de concreto armado, protendido e com fibras. Se a NBR 6118 diz como a estrutura deve ser projetada, a NBR 14931 diz como ela deve ser construída. Para a protensão, ela define como receber e guardar as cordoalhas, montar os cabos, concretar sem danificá-los, protender com equipamento calibrado, conferir o alongamento e proteger as ancoragens. A edição em vigor é a de 2023.[1], [2]

A NBR 14931:2023 em poucas linhas
- Título: Execução de estruturas de concreto armado, protendido e com fibras: requisitos.
- Publicação: 10 de abril de 2023. Substituiu a edição de 2004.
- Obrigatória: para projetos protocolados para licenciamento a partir de 7 de outubro de 2023, 180 dias após a publicação.[2]
- Elaborada por: Comissão de Estudo de Execução de Estruturas de Concreto (CE-002:124.016), do Comitê Brasileiro da Construção Civil da ABNT.
Onde ela se aplica na protensão
A norma vale para o concreto protendido com pós-tração, tanto aderente (cordoalhas em bainha com injeção de calda) quanto não aderente (cordoalhas engraxadas e plastificadas). Vale também para fundações superficiais, como radiers e sapatas, e para pré-moldados, junto com a ABNT NBR 9062.[2]
Ela não se aplica ao concreto protendido com pré-tração, aquele em que os fios são tensionados antes da concretagem, em pistas de fábrica. Também ficam de fora fundações profundas, tirantes ancorados no terreno, paredes-diafragma e solo grampeado.[2]
O que mudou em relação à edição de 2004
Segundo a ABECE, a revisão manteve a maioria das exigências de 2004, mas atualizou a norma à prática atual das obras.[2] As novidades que mais tocam a protensão:
- o título passou a citar o concreto protendido e o concreto com fibras;
- tabela de tolerâncias para o posicionamento das armaduras ativas, ou seja, bainhas e cordoalhas;
- revisão das regras de execução da protensão sem aderência e da injeção de calda na protensão com aderência;[3]
- recomendação de Análise Preliminar de Riscos (APR) para a execução;
- três níveis de inspeção da execução, conforme o impacto que uma falha teria na estrutura;
- alerta para a necessidade de projeto de canteiro, incluindo a movimentação de veículos e equipamentos sobre estruturas já executadas.
A própria norma traz um anexo com o resumo das alterações em relação à edição anterior.[2]
A protensão passo a passo, pela norma
1. Recebimento e armazenamento
Cordoalhas, ancoragens, cunhas e bainhas são conferidas na chegada à obra: tipo, diâmetro, identificação do lote e certificado do fabricante. As cordoalhas devem seguir a ABNT NBR 7483. O material fica protegido da chuva e longe do contato com o solo, e a norma limita o tempo de armazenamento do aço sem proteção adicional; em ambiente de agressividade muito forte (CAA IV), esse prazo é de 30 dias.[2]
2. Montagem dos cabos
Os cabos são posicionados com o traçado e as alturas do projeto, apoiados em cadeirinhas e bem amarrados para não se moverem na concretagem. A edição de 2023 passou a fixar tolerâncias para essa posição, na Tabela 6, quando o projeto não exigir valores mais rigorosos:[1]
| Posição do cabo ou bainha | Altura ou espessura da peça | Tolerância |
|---|---|---|
| Vertical | até 20 cm | ±6 mm |
| Vertical | de 20 cm a 60 cm | ±10 mm |
| Vertical | acima de 60 cm | ±13 mm |
| Horizontal | até 60 cm | ±13 mm |
| Horizontal | acima de 60 cm | ±24 mm |
Em todos os casos, o cobrimento do projeto precisa ser respeitado. A altura do cabo importa porque define a excentricidade, que é o que faz a protensão equilibrar as cargas.
Na protensão não aderente, a capa plástica precisa estar íntegra. Rasgos são reparados antes da concretagem com fita impermeável, para que a nata de cimento não alcance o aço.[1], [5]
3. Concretagem
O concreto é lançado e adensado sem deslocar nem danificar os cabos. Quando o concreto é bombeado, a tubulação fica apoiada em cavaletes, nunca sobre os cabos.[1], [5] A região das ancoragens merece atenção especial no adensamento, porque é onde a força do cabo passa para o concreto.
A NBR 14931:2023 também trata de concretagem com chuva, recomendando suspender o lançamento em chuvas fortes, acima de 10 mm/h, e de medidas contra a perda de água em dias de evaporação alta.[2]

4. Resistência para protender
A protensão só começa quando o concreto atinge a resistência mínima definida no projeto. Essa resistência é confirmada pelo rompimento de corpos de prova moldados na concretagem e curados nas mesmas condições da peça.[1] Protender antes da hora pode romper o concreto atrás da ancoragem.
5. Equipamento calibrado
A força aplicada é controlada pela pressão lida no manômetro da bomba. Por isso, macaco e manômetro são calibrados juntos, como um conjunto, e não podem ser trocados entre conjuntos depois da calibração.[1], [4]
6. Protensão e alongamento
Os cabos são protendidos na sequência e com a força definidas no projeto. Antes de tensionar, a cordoalha recebe uma marca de referência; depois, mede-se quanto ela se alongou. Na falta de outro critério no projeto, a NBR 14931:2023 admite diferença de ±10% entre o alongamento teórico corrigido e o medido. Fora dessa faixa, a ocorrência vai para o projetista avaliar.[1] Detalhamos esse controle no artigo sobre o relatório de alongamento na protensão.
Durante o tracionamento, ninguém pode ficar atrás do macaco, à frente do cabo ou entre o macaco e a bomba, e a área fica isolada e sinalizada.[4], [5]
7. Registro e liberação
Cada cabo é registrado: identificação, equipamento usado, pressão aplicada, alongamento teórico e medido, e anomalias como fio rompido ou trinca na região da ancoragem. O relatório é aprovado pelo projetista antes do corte das pontas dos cabos.[1], [5]
8. Acabamento: corte das pontas e proteção das ancoragens
Depois da aprovação, as pontas excedentes são cortadas. Na protensão sem aderência, a NBR 14931:2023 admite o corte com maçarico, desde que a chama não atinja as cunhas, deixando uma ponta de 15 mm a 20 mm fora da cunha e um cobrimento de 25 mm até a face do concreto (item C.7.6.1). Na protensão com aderência, a norma proíbe o maçarico no cabo e pede corte mecânico a frio, com disco ou tesoura.[1] A ancoragem fica dentro de um nicho recuado no concreto, que recebe proteção na ponta da cordoalha e é preenchido com graute sem retração e sem cloretos, que atacariam o aço tensionado.[1], [4], [5]
9. Injeção de calda, na protensão aderente
Na protensão com aderência, as bainhas são preenchidas com calda de cimento depois da protensão. A calda envolve o aço, cria a aderência com o concreto e protege o cabo da corrosão. A edição de 2023 revisou as regras dessa etapa,[3] e a calda segue a ABNT NBR 7681.
Quem responde pelo quê
| Etapa | Responsável principal |
|---|---|
| Força, traçado, resistência para protender, alongamento teórico | Projetista estrutural |
| Concreto, corpos de prova, formas e escoramento | Construtora |
| Montagem, protensão, medição, relatório e acabamento das ancoragens | Empresa de protensão |
| Análise de divergências e liberação do corte | Projetista estrutural |
Perguntas frequentes
O que é a NBR 14931?
É a norma da ABNT que define os requisitos de execução de estruturas de concreto armado, protendido e com fibras. A edição em vigor é a NBR 14931:2023.
A NBR 14931 vale para protensão não aderente?
Sim. Ela se aplica à pós-tração aderente e não aderente, com cordoalha engraxada e plastificada. Não se aplica à pré-tração, usada em fábricas de pré-moldados.
Desde quando a NBR 14931:2023 é obrigatória?
Para projetos protocolados para licenciamento a partir de 7 de outubro de 2023, 180 dias após a publicação, em 10 de abril de 2023.
Qual a tolerância de alongamento pela NBR 14931?
Na falta de outro critério no projeto, ±10% entre o alongamento teórico corrigido e o medido. Se o projeto definir outro limite, vale o do projeto.
Quando a laje pode ser protendida?
Quando o concreto atingir a resistência mínima definida no projeto, confirmada pelo rompimento de corpos de prova curados nas mesmas condições da laje. Não existe prazo fixo em dias.
Quando as pontas dos cabos podem ser cortadas?
Depois que o projetista aprova o relatório de protensão. Antes disso, um cabo com problema ainda pode precisar ser reprotendido.
Qual a diferença entre a NBR 6118 e a NBR 14931?
A NBR 6118 trata do projeto: como calcular e detalhar a estrutura. A NBR 14931 trata da execução: como construir o que o projeto definiu. Veja também NBR 6118 e protensão e as normas da protensão.
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Referências técnicas
- ABNT NBR 14931:2023, Execução de estruturas de concreto armado, protendido e com fibras: requisitos: item 10.2.4 e Tabela 6 (tolerâncias), Anexo A (protensão com aderência) e Anexo C (protensão sem aderência).
- ABECE/AECweb: Tudo o que você precisa saber sobre a nova norma de execução de estruturas de concreto, a ABNT NBR 14931:2023.
- Norma de Desempenho: Revisão da norma de estruturas de concreto, NBR 14931:2023.
- ABP, Manual Técnico ABP-MT-001:2022, Execução de estruturas protendidas.
- Cauduro, E. L. Manual para a boa execução de estruturas protendidas usando cordoalhas de aço engraxadas e plastificadas. 2ª ed. Belgo Bekaert.
