Por Romário Cavalcante · Engenheiro Civil · CREA-GO 1017602964D

Como conferir os resultados antes do corte das pontas

O relatório de alongamento na protensão reúne a identificação dos cabos, a pressão aplicada e os alongamentos medidos, comparados aos valores previstos no projeto. Ele permite conferir a execução e encaminhar divergências para análise técnica antes de concluir as etapas seguintes do serviço.[1]

Imagine uma laje com a protensão concluída. A equipe termina as medições e o próximo serviço já está esperando. Um cabo, porém, apresentou um alongamento diferente do previsto. A decisão agora depende de informações que precisam estar registradas: qual cabo foi medido, com qual equipamento, em qual etapa e contra qual valor de referência. É nesse momento que um relatório bem preenchido faz diferença para a obra.

Trena encostada na face da fôrma medindo a distância até a marca de tinta vermelha nas cordoalhas
Exemplo 1: aferição do alongamento após a protensão.

Por que conferir pressão e alongamento juntos

A pressão indicada no manômetro e o alongamento da cordoalha são controles complementares. A calibração relaciona a leitura de pressão à força aplicada pelo macaco; o alongamento mostra quanto o aço se deformou durante a operação. Uma leitura isolada de pressão não descreve, sozinha, o comportamento de todo o cabo.[3]

Para quem acompanha o serviço, a pergunta útil é: os registros de força, medição e projeto são coerentes entre si? Uma planilha preenchida sem essa conferência pode apenas organizar números, deixando a dúvida técnica sem resposta.

De onde vem o alongamento teórico

O alongamento teórico é calculado para as condições de cada cabo: comprimento, força ao longo do traçado, área de aço, módulo de elasticidade e perdas consideradas. Por isso, dois cabos de mesmo diâmetro não precisam apresentar o mesmo alongamento.[1]

O TQS, por exemplo, apresenta o alongamento esperado junto à análise das perdas de protensão e indica sua utilização nas plantas do projeto. Na conferência em campo, a referência deve ser o valor correspondente ao cabo e à revisão de projeto efetivamente executados.[5]

Também é necessário comparar a mesma etapa de medição. O procedimento deve esclarecer como são tratadas as leituras iniciais, as extremidades tracionadas e o assentamento das cunhas. Essas convenções precisam acompanhar os números do relatório.[2] [3] Nas obras da Brasil Protensão, por exemplo, a marca de referência fica a 10 cm da face da ancoragem, e o alongamento é lido a partir dela.

Trena apoiada na fôrma medindo a posição da marca de tinta amarela em cordoalhas de protensão
Exemplo 2: medição do alongamento com uma trena.

O que conferir no relatório de protensão

Uma conferência prática pode começar pelos campos abaixo. A relação deve ser ajustada ao sistema utilizado e ao procedimento da obra.[3]

Registro O que verificar
Obra e elemento Pavimento, laje ou viga, data da operação e revisão do projeto.
Identificação do cabo Código compatível com a planta e com a identificação em campo.
Materiais Tipo de cordoalha e identificação de lote, quando aplicável.
Equipamentos Identificação do macaco e do manômetro e calibração correspondente.
Força e pressão Valor previsto, leitura aplicada e unidades claramente indicadas.
Alongamentos Valores teórico e medido, unidade e convenção de medição adotada.
Análise e decisão Divergências, ocorrências, responsável pela análise e encaminhamento.

A rastreabilidade deve continuar depois do envio da planilha. Se houver uma correção, preserve a leitura original e registre o motivo da alteração. Assim, quem recebe o documento consegue distinguir um erro de digitação de uma nova medição.

O que dizem a norma e os manuais brasileiros

Quando o projeto não fixa outra tolerância, a ABNT NBR 14931:2023 permite liberar os cabos cujo alongamento medido fique dentro de ±10% do alongamento teórico corrigido. Fora dessa faixa, a ocorrência deve ser comunicada ao projetista estrutural, para interpretação e definição da liberação ou das correções.[7]

O Manual Técnico ABP-MT-001:2022, da Associação Brasileira de Protensão, recomenda interromper a protensão e consultar o projetista quando o alongamento passar do teórico em mais de 10% nas lajes ou 7% nos demais elementos. Se ficar abaixo de 90% do esperado, a orientação é fotografar a pressão atingida no manômetro e submeter ao projetista.[8]

Tabela do relatório de alongamento da viga 319 com alongamento teórico de 7,20 cm, medido entre 7,3 e 7,5 cm e todos os cabos aprovados
Trecho do relatório de alongamento formalizado.

O manual de boa execução de Eugenio Cauduro, editado pela Belgo, adota ±7% como meta de execução e pede régua ou trena com precisão de 3 mm na leitura.[9]

Esses números valem quando o projeto não define outro critério. Se o projeto indicar uma tolerância própria, vale a do projeto.

Como calcular a diferença entre o previsto e o medido

Para expressar a diferença em porcentagem, subtraia o alongamento teórico do medido, divida o resultado pelo teórico e multiplique por 100. Use valores na mesma unidade e na mesma base de comparação.

Diferença (%) = (alongamento medido − alongamento teórico) ÷ alongamento teórico × 100

Exemplo Teórico Medido Diferença
Cabo A 200 mm 190 mm −5%
Cabo B 200 mm 212 mm +6%
Cabo C 80 mm 76 mm −5%

Exemplos hipotéticos, apenas para demonstrar o cálculo. O sinal negativo indica um valor medido menor; o positivo, maior. Esses resultados não significam aprovação ou reprovação automática.

No cabo A, a diferença foi de 10 mm. No cabo C, de 4 mm. Embora as diferenças em milímetros sejam distintas, ambas representam 5% do respectivo alongamento teórico. Também vale conferir a unidade: 20 cm e 200 mm representam a mesma medida.

Por que o alongamento pode sair diferente do previsto

Uma divergência pode envolver medição, identificação, propriedades do aço, atrito, traçado, ancoragem ou equipamento. O PTI discute essas variáveis em sua orientação sobre medições de campo. O desvio é um motivo para investigar sua origem e não identifica sozinho a causa do problema.[1]

Cabos curtos merecem atenção especial

Quando o alongamento total é pequeno, uma diferença de poucos milímetros ganha peso. O PTI destaca que a posição da marca de referência, a precisão da leitura e a variação do assentamento das cunhas têm efeito proporcionalmente maior em cabos curtos. Essa sensibilidade precisa entrar na análise.[2]

Como ilustração matemática, 3 mm representam 5% de um alongamento de 60 mm, mas apenas 1% de um alongamento de 300 mm. O exemplo mostra por que avaliar somente a diferença em milímetros pode levar a conclusões inadequadas.

O que fazer quando aparece uma divergência

A organização da resposta começa antes da protensão: equipe de execução, fiscalização e projetista precisam saber quem recebe o relatório e quem decide sobre as pendências. As orientações do PTI ressaltam essa coordenação e a análise dos registros.[4]

  1. Identifique o cabo e preserve o registro da ocorrência, incluindo leituras e observações de campo.
  2. Confira a revisão do projeto, as unidades e a transcrição dos valores. Uma célula preenchida na linha errada muda a interpretação.
  3. Verifique com a equipe técnica o método de medição, os dados do equipamento e a comparação utilizada.
  4. Encaminhe a divergência ao responsável técnico e ao projetista para definir a necessidade de verificações adicionais e o tratamento aplicável.
  5. Registre a decisão e conclua somente as etapas liberadas, conforme o procedimento da obra.

Não aumente a pressão por iniciativa de campo para fazer o alongamento coincidir com a planilha. O PTI alerta contra sobrecarregar o cabo apenas para atingir uma medida esperada.[1]

Quando cortar as pontas dos cabos

O corte das pontas excedentes e a proteção final das ancoragens devem seguir a aprovação da protensão e as especificações do sistema. Depois dessa aprovação, a conclusão dos acabamentos precisa ser organizada para proteger as extremidades. O PTI trata essa sequência como parte do cuidado com a durabilidade.[4] Pelo manual da Belgo, os relatórios preenchidos vão para aprovação do projetista antes do corte das pontas.[9]

A aprovação dessa etapa também não deve ser confundida com autorização geral para retirar escoramentos ou carregar a estrutura. Essas decisões precisam seguir o projeto e as liberações específicas da obra.

Perguntas frequentes

O que é o alongamento na protensão?

É o quanto a cordoalha se estica quando o macaco hidráulico a tensiona. Mede-se na obra e compara-se com o valor teórico do projeto.

Como a Brasil Protensão mede o alongamento?

Marcamos a cordoalha a 10 cm da face da ancoragem antes de tensionar. Depois da protensão, medimos o deslocamento dessa marca e registramos o valor de cada cabo.

Existe uma tolerância única para o alongamento?

Não. O critério vem primeiro do projeto. Quando o projeto não define, a NBR 14931:2023 permite liberar os cabos dentro de ±10% do alongamento teórico corrigido, e o manual da ABP pede para consultar o projetista acima de 10% em lajes e 7% nos demais elementos.

A média dos cabos basta para liberar o serviço?

Não. A média pode esconder resultados individuais diferentes: dois desvios do mesmo tamanho e sinais opostos dão média zero. Guarde os registros cabo a cabo e avalie o conjunto pelos critérios da obra.

Um relatório sem ocorrências comprova toda a estrutura?

Não. O relatório documenta uma parte do controle da execução. Projeto, materiais, concreto e montagem têm verificações próprias.

Controle da protensão integrado à execução

Na Brasil Protensão, o acompanhamento dos alongamentos integra a execução da protensão não aderente, com registros disponibilizados para a obra e sua equipe de engenharia. A empresa atende a partir de suas unidades em Brasília e Goiânia.[6]

Se a sua obra já tem projeto de protensão, envie o projeto à Brasil Protensão para conversar sobre fornecimento, montagem, execução e entrega dos registros técnicos.

Para conhecer mais aplicações da solução, veja como funciona a protensão não aderente.

Referências técnicas

  1. PTI: Field Elongation Measurements, FAQ 6, 2007.
  2. PTI: Short Tendon Elongations, Technical Note 16.
  3. MnDOT: especificações da ponte 69071, seção SB 12, registros de protensão, 2010.
  4. PTI Journal: Viewpoints, outubro de 2018, coordenação e conclusão da protensão.
  5. TQS: Editor de Lajes Protendidas, seção Perdas de Protensão.
  6. Brasil Protensão: Protensão Não Aderente.
  7. ABNT NBR 14931:2023, Execução de estruturas de concreto armado, protendido e com fibras: requisitos, Anexo C (protensão sem aderência), item C.7.5.4.
  8. ABP, Manual Técnico ABP-MT-001:2022, Execução de estruturas protendidas, itens 12.35 e 12.37.
  9. Cauduro, E. L. Manual para a boa execução de estruturas protendidas usando cordoalhas de aço engraxadas e plastificadas. 2ª ed. Belgo Bekaert.